Matemática na escola atual e o desafio de superar a crise

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Vamos medir?
dezembro 2, 2016

Matemática na escola atual e o desafio de superar a crise

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Por Kátia Stocco Smole, diretora do Mathema,

Imaginemos que, por uma decisão inusitada, no Brasil fosse decidido abolir as aulas de matemática das escolas. Não faltariam educadores opondo-se a essa ideia, seríamos vistos como um país que passa por um surto de insanidade repentino, haveria defesa da disciplina e de seu ensino, alegando sua utilidade na vida, na ciência e no desenvolvimento humano.

Congelemos a ideia momentaneamente, assim como os argumentos contra ela, e analisemos alguns dados acerca da aprendizagem matemática da população brasileira, iniciando pela Prova Brasil de 2013: mesmo com ligeira melhoria de proficiência, apenas 20 em cada 100 estudantes brasileiros concluem o ensino fundamental sabendo o que deveriam saber de matemática nessa etapa escolar.

Saltemos da Prova Brasil para o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). O relatório publicado a partir da prova de 2012 sinalizava a diminuição em 18% do número de jovens brasileiros abaixo do nível básico de conhecimento em matemática. O avanço não foi suficiente para alavancar nossos resultados, que foram ainda piores em 2015, quando o Brasil apareceu entre os cinco piores, com uma média de 377 — a média entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pelo teste, é de 490.

A análise do desempenho dos alunos brasileiros aponta que a maioria (70,3%) está abaixo do nível 2 de proficiência matemática, entre os 6 estabelecidos pelo PISA, enquanto em Xangai a maioria dos alunos (55,4%) está nos dois níveis mais altos. Segundo estudos da OCDE, jovens que ficam abaixo do nível 2 nas disciplinas analisadas — matemática, leitura e ciências — terão dificuldades na escola e, mais tarde, no mercado de trabalho, podendo não ascender socialmente.

Os mais críticos em relação ao exame internacional talvez argumentem que ele desconsidera as características das nossas escolas, estando mais adequado aos países ricos; que muitos dos nossos alunos de 15 a 16 anos fazem a prova sem ter concluído o 9º ano ou que as relações entre os resultados do teste não devem ser vistas como determinantes do futuro do jovem. E se saíssemos do PISA para analisar uma pesquisa realizada em cenário estritamente brasileiro?

Consideremos o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), pesquisa idealizada em parceria entre o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, realizado com o apoio do IBOPE Inteligência, com o objetivo de mensurar o nível de alfabetismo da população brasileira entre 15 e 64 anos, avaliando suas habilidades e práticas de leitura, de escrita e de matemática aplicadas ao cotidiano.

No início de 2016, foi publicado um estudo dos microdados coletados desde o início da pesquisa, apontando que, ao longo de suas edições, houve melhoria nas condições de alfabetismo das populações jovem e adulta brasileiras, redução da proporção de pessoas nos níveis mais baixos e ampliação nos níveis intermediários, embora se observe a estagnação no grupo mais alto da escala de proficiência do INAF 3. De acordo com o relatório, dos cinco níveis possíveis de alfabetismo funcional, a maior parcela da população brasileira está no grau elementar, mesmo entre os escolarizados.

Analisando especificamente a matemática, significa que 42% da população brasileira entre 14 e 65 anos “resolvem problemas envolvendo operações básicas com números da ordem do milhar, que exigem certo grau de planejamento e controle (total de uma compra, troco, valor de prestações sem juros), comparam ou relacionam informações numéricas ou textuais expressas em gráficos ou tabelas simples, envolvendo situações de contexto cotidiano doméstico ou social, reconhecem significado de representação gráfica de direção e/ou sentido de uma grandeza (valores negativos, valores anteriores ou abaixo daquele tomado como referência)” (Ação Educativa, 2016, p. 7).

Talvez uma das conclusões mais alarmantes do estudo seja que, entre os milhões de desempregados no Brasil, a minoria expressiva (6%) tem nível de proficiência alto no INAF. É possível inferir que não saber matemática pode acentuar a desigualdade social, diminuindo, inclusive, a condição de empregabilidade. Finalmente, observemos os dados de uma pesquisa realizada com adultos acima dos 25 anos de idade, em 25 cidades brasileiras, por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o Instituto Círculo da Matemática, e divulgada em 2015, indicando, entre outros resultados preocupantes, que a maioria dos respondentes não sabe fazer operações matemáticas simples, sendo que 63% não conseguem responder a perguntas sobre percentuais. Os dados ainda indicam que o conhecimento matemático da nossa população adulta é quatro vezes menor do que o de países desenvolvidos.

Voltemos à provocação inicial. O desconhecimento matemático dos brasileiros denotado pelas pesquisas indica que das escolas saem pessoas despreparadas para participar competentemente em uma sociedade democrática e diversa, tornando difícil usar as justificativas de senso comum, nomeadamente da aplicação na vida cotidiana, para defender a permanência da matemática no currículo escolar, não é mesmo?

No entanto, saber matemática é cada vez mais importante, seja porque permite organizar as finanças pessoais e familiares, analisar criticamente as taxas de juros do cartão de crédito e saber como evitá-las percebendo seu grau de extorsão. As habilidades matemáticas melhoram a atuação profissional mesmo em áreas em que ela não é tão evidente.

Para ficar em alguns poucos exemplos, imaginemos a falta que faz conhecer medidas de capacidade para um auxiliar de enfermagem. Obtém vantagens na construção da defesa de um cliente o advogado cuja escola favoreceu processos de enfrentamento de situações-problema, de análise e tomadas de decisão durante as aulas de matemática. Sem mencionar a importância de saber ler e analisar informações numéricas expressas em gráficos e tabelas para entender qual é a posição no mercado da empresa que se gerencia ou na qual se trabalha. A força do pensar matemático não está em calcular rapidamente e sem erros, mas em como estabelecer conexões, pensar logicamente e usar dados, números e noções de espaço criativamente.

Assim, a questão que se coloca não se relaciona com a importância da disciplina, mas com a mudança de cenário. Para mudar o cenário atual, quatro pontos merecem nossa atenção: rever crenças acerca da matemática e de sua aprendizagem; aproveitar os dados das avaliações no que eles trazem de positivo; ter clareza daquilo que os alunos devem aprender e considerar pressupostos mais apropriados para que a aprendizagem ocorra.

Considero essencial superar algumas crenças amplamente difundidas, entre elas a de que a matemática é relativa exclusivamente a números, uma disciplina de regras e procedimentos sem sentido, que exige rapidez, na qual não há espaço para tentar e errar, ou ainda que há alunos que são aptos para aprender e outros que não são.

Cada uma dessas crenças pode ser facilmente rebatida. Para ficarmos apenas na questão da aptidão dos alunos, estudos a respeito de como se desenvolve o cérebro apontam que cerca de 95% dos alunos têm maneiras distintas de aprender matemática, mas não na falta de condições intelectuais para isso, e que a combinação de ensino adequado e incentivo pode ser bem-sucedida para que haja aprendizagem matemática. A não superação desse conjunto de crenças faz com que aceitemos os fracassos ou os usemos para justificar a não aprendizagem e, consequentemente, impedem que busquemos soluções eficazes para o problema.

Um segundo aspecto refere-se ao aproveitamento das avaliações, em particular do PISA e da Prova Brasil, que esbarra no pouco uso que ainda fazemos dos dados que elas apresentam. Praticamente não saímos da constatação de que, sim, vamos mal. Seria necessário entender a partir dos dados o que os alunos sabem, o que não sabem e como intervir para que avancem do ponto em que estão.

Para isso, é urgente traduzir aos educadores de modo compreensível o que essas provas avaliam, como avaliam e o significado dos indicadores de proficiência dos alunos, bem como organizar um plano de intervenção a partir da análise. Outro fator a ser mais bem explorado diz respeito a mapear escolas e professores com bons resultados, sistematizando as práticas desenvolvidas por eles para conseguir que os alunos aprendam. Tomemos como exemplo Xangai, onde professores de destaque socializam suas estratégias com outros, formam colegas disseminando saberes e práticas eficazes. No Brasil, as iniciativas nesse sentido são tímidas e pouco difundidas.

Outro ponto importante para mudar a situação da matemática na escola é a definição, ano a ano, daquilo que os alunos devem aprender para ampliar suas capacidades cognitivas, viver em sociedade e levar adiante seu projeto de vida. Decidir como ensinar está no âmbito da autonomia de cada educador, no cenário social em que se encontra. No entanto, há conhecimentos matemáticos a que todos os alunos brasileiros têm direito e, sem eles, torna-se difícil pensar na equidade em relação à educação. Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular será muito bem-vinda.

Se devemos ter clareza do que ensinar, também é importante conhecer como ensinar e para quem ensinamos. A mudança de cenário envolve saber que a forma de ensinar é determinante para que a aprendizagem ocorra. Aulas puramente expositivas, listas de exercícios sem sentido e emprego reduzido de metodologias ativas não respondem às necessidades das aprendizagens de matemática porque estão distantes da maneira por meio da qual crianças e jovens aprendem.

Ao levarmos em conta como o aluno aprende, é essencial lembrarmos que a matemática também é compreendida como linguagem, com modo próprio para descrever regras, leis, relações e fenômenos diversos. Essa linguagem modela situações-problema, permite desenvolver procedimentos gerais para seu enfrentamento e resolução e precisa ser apropriada pelos alunos ao longo da escola. O professor que ensina matemática é, em essência, um alfabetizador, devendo cuidar para que em suas aulas haja espaço para falar, ler, escrever e ouvir matemática.

Destaco um quarto ponto indispensável para a mudança: a despeito das inúmeras aplicações que essa ciência tem em amplos campos do saber humano, por mais que, do despertar ao dormir, convivamos com suas aplicações e usos, será na aula de matemática, com o professor que ensina matemática, que o aluno aprenderá e desenvolverá sua proficiência nesse campo do saber. Considero os professores o elemento mais importante para os alunos aprenderem matemática. São eles que podem criar um ambiente estimulante e seguro para a aprendizagem, dando aos alunos incentivos para seguir adiante, acreditando que em suas aulas todos conseguem saber matemática.

O ensino de matemática é complexo, exigindo que os educadores tenham tanto uma compreensão profunda do conhecimento matemático que esperam ensinar quanto uma visão do modo pelo qual a aprendizagem acontece e progride ao longo da escola básica. Instâncias governamentais devem valorizar o professor, dando-lhe condições de trabalho.

O gestor escolar pode apoiar as ações pedagó- gicas inovadoras. A família deve incentivar o filho a estudar, garantindo que ele vá às aulas. Ainda assim, a aula planejada, organizada, com focos definidos, com espaços de intencionalidade tem o indelegável papel de fazer o aluno aprender matemática, compreendendo a importância que ela tem na vida de todos nós.

O cenário atual exige compromisso coletivo para enfrentar os pontos aqui abordados. Não há mais o que denunciar; é impensável que nos acostumemos com os resultados ruins avaliação após avaliação. Cada líder, cada responsável por políticas educacionais, cada administrador de escola, secretário de educação, professor e pai deve assumir um compromisso com a aprendizagem matemática dos alunos. Somente assim poderemos superar os obstáculos que atualmente impedem o êxito na aprendizagem matemática de todos os alunos.

Texto publicado originalmente na revista Pátio, do Grupo A (conteúdo exclusivo para assinantes)