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A TRADIÇÃO MAIS MODERNA DA ESCOLA

Por Escrito em: 23/05/2019
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Kátia Stocco Smole

Diretora do Grupo Mathema

É comum que a tradição e a modernidade nos atormentem, quer pelos debates que se estabelecem em torno dos pressupostos que ambas contêm, quer porque estejamos sempre atrás da modernidade uma vez que não queremos e não podemos, como sociedade, pessoas e instituições, ser tradicionais. De certo modo, em uma análise apressada, o novo é bom, está sempre em consonância com a modernidade. O tradicional é ultrapassado e, portanto ruim.

Vivemos em uma sociedade marcada pelas transformações tecnológicas, que convive com o medo da obsolescência, que precisa não se deixar estagnar. Talvez venha daí a oposição tradição/modernidade, que em nossa opinião não passa de uma abordagem simplista sobre um assunto, no mínimo, instigante.Tomemos como exemplo as músicas clássicas, que são parte do legado de séculos de evolução cultural do homem para o homem. Poucos negariam que elas têm tradição. Seriam, portanto, tradicionais, e na lógica apressada das modernidades e dos modernosos, ultrapassadas, ruins. Concordamos todos com o silogismo “tudo que é tradicional é ultrapassado”, as músicas clássicas são tradicionais. Logo elas são ultrapassadas? Certamente que não.

Há muitas vítimas da superficialidade que gira entorno da suposta oposição entre tradição e modernidade, velho/novo., . Na escola, essa dicotomia tradição/modernidade tem conseqüências bem visíveis, seja na sensação da necessidade de correr atrás das novidades tecnológicas e pedagógicas, seja nos autores modernos que invadem as reuniões de educadores e as capas das revistas da sala de professores. Você já leu o autor tal? Se a resposta é não, o olhar que se segue é de pura inconformidade com o modo como o não leitor parece ser tradicional, ultrapassado.

Essa conversa de oposição entre tradicional e moderno fez com que, nos últimos 50 anos, freqüentemente os professores fossem invadidos em sua intimidade escolar por muitos e modernos termos: centros e interesse, interdisciplinaridade, modelagem, temas geradores, temas transversais, ensino por competência e, mais recentemente projeto, (algo que, inclusive, já teve destaque durante a Escola Nova).

O projeto atualmente traduz, no ambiente escolar, o sentido de modernidade, de atualidade. Trabalhar por projetos é ser atual, evitar a obsolescência da profissão. Palavras como memorização, sistematização, exercitação fazem parte daquela escola tradicional a qual queremos ultrapassar todos os dias.O assustador é que a busca incessante pela novidade das formas de ensinar, pelos autores da moda, pela última palavra em tecnologia pode não vir acompanhada daquilo que mais interessa a quem faz e está na escola: a aprendizagem dos alunos.

Estando nas muitas escolas todos os dias, nos mais diferentes seguimentos escolares, é possível ver alunos que fizeram muitas coisas, mas não aprenderam quase nada. São visíveis as lacunas deixadas por essa instituição de ensinoque corre atrás do moderno, mas não pensa, não reflete, não percebe que a modernidade vazia de pensamento é tão ou mais ultrapassada do que as tão temidas tradições. Faz-se, na verdade, uma maquiagem, mas não uma transformação.

Quando paramos para analisar um projeto, por mais simples que seja, vemos que a estrutura fragmentada – dos tempos de 45 minutos, das aulas separadas por disciplinas que compõem um currículo que mais lembra um mosaico – está lá. Também estão lá a avaliação terminal, classificatória e os diálogos inexistentes entre uma disciplina do currículo e as demais. A ânsia para inserir e acompanhar as novidades funciona, na maioria das vezes, como uma tentativa de colocar uma roupa 40 em um manequim 46. Não cabe.

Contudo, há outras permanências que merecem a nossa atenção, entre elas, os conteúdos da disciplina que o professor ensina, dos quais ele não abre mão. A um olhar rápido, isso poderia ser um sinal do tradicionalismo que impera na escola, mesmo sob a ideia de trabalhar por projetos. Mas essa resistência, essa teimosia em ensinar é a tradição mais pura da escola, que como a música clássica, não pode ser perdida.
Devemos questionar a forma, é dever do educador analisar possibilidades de maior acesso de todos ao conhecimento. Porém a tradição de ensinar os conhecimentos que podem ser as chaves para compreensão da sociedade em que se vive, seja por meio de projetos ou qualquer outra forma, é a tradição mais moderna da escola e será sempre.

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