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MÉTODO KUMON, SIM OU NÃO? DEPENDE…

Por , Escrito em: 23/05/2019
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Kátia Cristina Stocco Smole

Maria Ignez Diniz

Diretoras do Grupo Mathema

Cristiane Chica

Gestora da Área Pedagógica do Grupo Mathema

O Método Kumon está no Brasil há mais de trinta anos e conta com uma  rede de 1550 franquias, atendendo a mais de 80 mil alunos. Com toda esta repercussão, já é chegada a hora de questionar sobre a real validade e aplicabilidade do método na educação brasileira.

Criado no Japão, o sistema começou a tomar forma em 1954 quando Tooru Kumon, professor da disciplina no curso colegial, desenvolveu para seu filho uma seção de exercícios de reforço que podia ser resolvida em menos de 30 minutos. O método se espalhou rapidamente pelo país de origem.

No Brasil, o método foi aplicado pela primeira vez em 1977 em uma escola em São Paulo voltada  para filhos de japoneses. Desde então, o número de alunos que passam por aulas de Kumon teve um crescimento significativo. Entendemos que este movimento deve-se principalmente às dificuldades que os alunos sentem com a matemática escolar, as falhas do ensino da disciplina na escola e, finalmente, à ansiedade dos pais em ver seus filhos livres dos problemas com a matemática.

A base do trabalho Kumon é a repetição exaustiva de técnicas de cálculo e a auto-instrução.Embora as aulas às vezes sejam dadas em pequenos grupos, o que conta mesmo é o trabalho individual. Implícita a este “método” está a ideia de que o bom aluno é aquele que responde corretamente ao que se pede.

Para opinar sobre a adequação ou do Kumon, é preciso  considerar o que é exigido do aluno para que ele mostre saber matemática e a forma como os professores ensinam.Se uma escola considera que saber matemática é fazer cálculos rapidamente, resolver problemas muito parecidos  e que aprender matemática é fazer listas repetitivas de exercícios e problemas, então é comum que o processo Kumon funcione aparentemente.Afinal, as bases do trabalho escolar e no Kumon combinam perfeitamente neste caso.

No entanto, o mundo de hoje exige a formação de indivíduos cada vez mais críticos, criativos, hábeis em tomar decisões e que saibam trabalhar cooperativamente juntos a um grupo. Trata-se de um cenário amplamente influenciado pela tecnologia, no qual calculadoras e computadores são usados para fazer cálculos e as demais tarefas repetitivas e mecânicas. Que lugar teria, então, uma formação matemática que privilegia destreza, memória e repetição?

A matemática poderia contribuir muito para formar pessoas que correspondem àsexpectativas atuais se estiver voltada para desenvolver o potencial criativo. Para tanto, a escola deve abordá-la por meio de uma metodologia que leve o aluno a sentir a matemática como um jogo, um desafio, uma ciência a serviço do progresso social, científico e tecnológico do homem.Sob esta ótica, há aspectos essenciais a serem trabalhados pelos professores para auxiliar os alunos a usarem a matemática como ferramenta de  cidadania . As habilidades de resolver problemas, de fazer estimativas de quantidades e medidas, de coletar, organizar e analisar dados estatísticos ao lado das capacidades geométricas devem ser o foco do educador preocupado em formar estudantes conectados às necessidades contemporâneas.

Assim, “o bom aluno” não é aquele que  cumpre as tarefas para as quais foi adestrado, e sim aquele capaz de enfrentar desafios, que vê no erro um caminho para evoluir para soluções mais adequadas, que busca e propõe soluções para os problemase que é capaz de vislumbrar diferentes alternativas para uma mesma questão, sabendo optar pela melhor delas. Sob esta ótica, o Kumon e suas técnicas de repetição são inadequados.

Nossa experiência tem mostrado que crianças que fazem Kumon e estudam em escolas como uma visão de ensino e aprendizagem mais contemporâneas podem ter sucesso em momentos e tarefas específicas como, por exemplo, nas técnicas operatórias. No entanto, quando lhes é exigido um raciocínio mais elaborado, podem fracassar e sofrer, pois, nas aulas de Kumon, a busca é por não errar ao invés de aprender com os erros.

Muitas vezes, a ênfase na técnica mascara incompreensões conceituais e é essencial que isso seja levado em conta. Quem aprende realmente a matemática, conta com outros recursos para obter sucesso em situações novas quando a memória falha. O contrário não é verdadeiro.

Voltando ao caso dos pais que nos indagam sobre matricular ou não o filho no Kumon, nossa resposta costuma a seguinte: antes de tomar a decisão, questionem o próprio trabalho da escola e verifiquem qual é a concepção de ensino e aprendizagem de matemática que fundamenta seus trabalhos. Observe se a instituição de ensino e os professores já esgotaram as estratégias que podem ser usadas para auxiliar a criança em dificuldade. O que não pode ser feito é atribui à criança a culpa por não aprender, exigindo a punição de realizar aulas extras por ansiedade dos pais ou por não ter tido a chance de aprender de novo.

Aos professores que desejam melhores resultados de seus alunos em relação a procedimentos de resolução de problemas e, especialmente, em relação aos cálculos, vale a pena perguntar: cálculo mental é a mesma coisa que fazer cálculos rapidamente? Consideramos que não, pois cálculo mental deveria ser sinônimo de cálculo pensado,de saber escolher a melhor operação quando ela lhe for exigida.

O que parece necessário é que o professor busque,conquistas mais efetivas no ensino e aprendizagem. TA resolução de problemas e a realização de cálculos são habilidades que podem ser aprimoradas por meio de estratégias como jogos, literatura, problemas de quebra-cabeças dentre outras. São atividades, que podem auxiliar os alunos a desenvolverem não apenas técnicas, mas essencialmente competências que ampliem a confiança em sua capacidade de aprender matemática e transpor os conhecimentos conquistados para outras situações.

 

Referências bibliográficas:

Revista @prender. Nº 05 – Março/Abril de 2002

Brasil Secretaria de Educação Fundamental. Paramêtros Curriculares Nacionais,

Matemática. Brasília : MEC/SEF,1998.

Para C. e Saiz, I. (org).Didática da Matemática.Porto Alegre : Artmed, 1996.

SMOLE, K. S. e Diniz. M. I.Ler, Escrever e Resolver Problemas:Habilidades Básicas para Aprender Matemática.Porto Alegre: Artmed, 2001.

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1 Comentário para “MÉTODO KUMON, SIM OU NÃO? DEPENDE…”

  1. AvatarRenata Yazbek disse:

    Olá. Minha filha faz Kumon de matemática e de fato procurei auxílio quando percebi que a dificuldade nas contas estavam acabando com a auto estima dela e fazendo com que ela pegasse horror a matéria. Fui atendida por pessoas muito delicadas, que iniciaram o trabalho individualizado, iniciando em estágios de fácil compreensão, para que ela pudesse evoluir e se sentir capaz. A escola onde ela estuda apresenta a matéria através de jogos e raciocínio, escola construtivista que valoriza o pensar. Percebi que a combinação da escola e do Kumon teve um efeito incrível no aprendizado de minha filha, tornando-a uma aluna dedicada e com ótimas notas em todas as outras matérias, uma vez que ela se utilizou do método de estudo para se organizar nas demais disciplinas. Acredito que nem tanto ao céu nem tanto a terra, as crianças hoje recebem um caminhão de informação e estímulos, sendo que sentar e desenvolver a capacidade de concentração exige sim disciplina e dedicação, qualidades que estão sendo deixadas de lado em nome da “criatividade”, do “pensar livre”. Gostei do texto, mas acho que para muitas crianças o Kumon é sim de grande ajuda. Hoje minha filha participa – por amor – das aulas extracurriculares de matemática da escola, e participa das Olimpíadas de matemática (OBM), tendo esta matéria se tornado sua preferida. Dou meu testemunho porque sou grata a confiança e a segurança que o Kumon despertou em minha filha, tendo dado a ela a segurança de que se ela se dedicar é capaz de aprender qualquer coisa. Minha opinião: as escolas deveriam investir no equilíbrio, auxiliando assim crianças com diferentes dificuldades.

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